O vídeo que você acabou de assistir aponta um pouco da situação vivenciada por lideranças camponesas no Maranhão. Essas pessoas que decidem se por a frente de uma luta, são constantemente ameaçadas e mortas por aqueles que não suportam a possibilidade de serem questionados, que buscam constantemente ampliar o seu controle sobre a terra e a vida dos camponeses.
Algumas trajetórias de lideranças, que lutaram contra o avanço da modernização dependente no Maranhão são um exemplo de resistência. Como é o caso de João Palmeiras Sobrinho de Imperatriz e Firmino Guerreiro de Bom Jardim (você pode ver a trajetória desses líderes na aba mapa da violência). Outro exemplo marcante da luta camponesa no Maranhão é Manoel da Conceição, cuja trajetória iremos nos dedicar nessa página.
Manoel Conceição Santos nasceu em 1935, na cidade de Pedra Grande no Maranhão. Dedicava-se ao trabalho na terra, lavoura. Ainda jovem vive com sua família a expulsão de sua terra, devido sua comunidade ter concordado com um mandão local que este passasse as terras para seu nome em troca de proteção. Tendo este falecido, sua viúva, no entanto, expulsou os camponeses da terra. Como narra Manoel da Conceição:
O que aconteceu? Meu pai era um bom freguês. Todos os anos pagava direitinho pra poder fazer novas compras. Vendia a produção pra esse Luís Soares. Então ele disse: "Olha, Antônio, agora chegou o negócio de pagar o imposto territorial, mas não precisa você pagar. Eu faço o usucapião – meto as tuas terras dentro das minhas, legalizo tudo. Tu não vai pagar nada, mas as terras continuam lá sendo tuas. É apenas uma questão de formalidade." Papai ficou achando Luís Soares melhor ainda: "Que ótimo, que bom. Se ele não faz isso, o estado mete a mão nas terras." Em 1952, 1953, esse cara morre. Daí em diante, a viúva ficou com tudo e começou a cobrar o aluguel das terras, dessas terras que eram de herança, de que a gente era dono. Os caras que tinham feito verbalmente compromisso com Luís Soares começaram a reagir: "A gente não paga. Essa terra é nossa, pra que é que vai pagar aluguel? Que tomar terra nossa coisa nenhuma!" Meu pai foi um dos que resistiram e, por fim, em 1955, a viúva invadiu essa propriedade e nos expulsou das terras. Invadiu com jagunços municipais (SANTOS, 2010, p.87).
Em 1955, Manoel da Conceição muda-se para a região do Mearim (próximo ao munícipio de Bacabal). E retorna para Pirapemas, onde irá organizar a Associação de Lavradores junto com outros camponeses e camponesas. Ainda na cidade de Pirapemas, Conceição se envolve em um conflito com fazendeiros em 1957, na ocasião latifundiários e a polícia local realizam uma chacina, massacrando dezenas de camponeses. Com isso Conceição decide ir em direção ao Vale do Pindaré, como ele mesmo descreve:
Com essas mortes que houve em Pirapemas, nós não tínhamos mais nenhuma alternativa de conquistar nosso pedacinho de terra. Saímos de novo pra terras devolutas, procuramos o Vale do Pindaré-Mirim. A família então se dividiu. Dois irmãos ficaram em Pirapemas com os tios e os avós. Fui eu, meu pai, minha mãe, uma irmã e dois irmãos mais velhos. (SANTOS, 2014 apud Sulidade, 2018, p. 68)
A região do Pindaré (ver página sobre o grilo Pindaré), local em que Manoel da Conceição se fixa em 1963, era considerada uma região de "terras livres", "disponíveis, o que atraia diversos camponeses do Maranhão, e do Nordeste como um todo, pessoas que se deslocavam de áreas com ocupação mais antiga.
Em Pindaré Mirim, Conceição inicia sua formação sindical por meio do Movimento de Educação de Base (MEB). Sempre teve vínculo com a Igreja, em primeiro momento protestante, posteriormente, aproximou-se mais do catolicismo. Logo após, ele cria, em parceria a outros camponeses 28 escolas de alfabetização, as quais voltavam-se não somente para a apreensão dos códigos, mas também para o letramento sindical e político crítico. Fundaram ainda o primeiro Sindicato de Trabalhadores Rurais de Pindaré-Mirim, presidido por Manoel logo de início, o qual no período em que se instaura o golpe militar já continha quatro mil camponeses.
Os camponeses liderados por Manoel da Conceição travavam uma luta contra os fazendeiros, pois tinham suas roças constantemente invadidas pelo gado criado solto. Essa luta era dificultada pelo poder exercido por esses fazendeiros em diferentes áreas, pois eram os comerciantes da região, o que permitia o controle sobre a economia e a política municipal. Portanto a criação do sindicato de Trabalhadores Rurais de Pindaré-Mirim, era a organização dos camponeses contra as arbitrariedades cometidas por esses fazendeiros, e pela conivência do Estado. Como observou Manoel da Conceição:
[...] Antes mesmo do João Goulart, tinha uma oligarquia – Vitorino Freire – que vinha ao longo da história. Ele lá é quem tinha o monopólio de tudo, então os trabalhadores rurais não sabiam nem que eram a autoridade, Ministério do Trabalho, coisa nenhuma. Ouvia só falar. Mas não sabia nem quem é. Não tinha nenhuma visita. E o sindicato quando foi fundado, para o Ministério do Trabalho lá no Maranhão, o que nós ficamos sabendo depois é que foi visto como uma ameaça à paz na região. Está entendendo? Não foi visto como uma coisa progressista, de ser acatada, foi visto como uma ameaça, de luta pela terra. Porque a palavra de ordem que foi aprovada no dia da fundação, que todo mundo queria, qual foi? Havia já uma prática dos fazendeiro criar o gado dele na roça dos agricultores. Eles não faziam o pasto. No verão, que tinha pasto na beira dos lagos, o gado ia para lá se alimentar; mas no inverno, esses lago enchia d'água, e aí esse gado subia para os altos, e os altos estava na roça dos agricultores, e eles comiam. E o maior desejo que tinham os agricultores dali era ver esse gado preso, para não roer o arroz dele, a produção dele. Então, qual foi a palavra de ordem? É que todo fazendeiro prendessem seus gados, para não dar prejuízo na roça do agricultor. Aí todo mundo bateu palma, alegre, satisfeito. [...] Esse foi o combinado. Só que nós lutamos contra o gado na roça até o dia do golpe militar [...] (Santos, 2006 apud Amaral Neto, 2024, p. 285).
Manuel da Conceição e Antônio Pereira no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tufilândia
Fonte: Santos, 2010, p. 200.
A primeira forma de resistência dos lavradores contra os desmandos dos fazendeiros em Pindaré-mirim foi o abate do gado que invadia as roças para que a carne pudesse ser vendida e cobrisse os prejuízos causados.
Com o avanço das reivindicações pela Reforma Agrária durante o governo João Goulart, Pindaré-mirim, que era o município com maiores índices de conflitos agrários, recebeu a visita da Superintendência da Política Agrária (SUPRA), órgão criado no governo Goulart para planejar e executar a reforma agrária no pais. Sobre essa visita, Conceição afirma que:
Quando nós vimos que o negócio estava feio mesmo, resolvemos manter a resistência lá e divulgar o máximo possível na imprensa em São Luís. A gente conhecia uns caras que eram jornalistas e estavam de acordo em divulgar os problemas do interior. Ao mesmo tempo, a gente pressionava através de telegrama, carta, abaixo-assinado, o diabo. Mas nada de vir nenhuma resposta lá do presidente da República. Naquele tempo era o João Goulart o homem que ia fazer a Reforma Agrária. Na nossa cabeça, a longo prazo, o governo ia resolver o problema a nosso favor. As ordens ainda não tinham chegado: por isso é que a gente mandava carta e abaixo-assinado. Quando foi antes do fim de março, chegou o pessoal da Supra (Superintendência de Reforma Agrária). Chegaram lá por tanto burburinho que tinha na região. Fizeram uma sindicância. Esse Zé Bezerra, precisava ver o relatório dele! O homem se cagou todo. Ficou mais humilde que santo. Falou com tanta gentileza que os trabalhadores tinham razão, que ele tinha cometido alguns erros e que as leis eram mesmo restritivas! Agora, o major Vinhas respondeu agressivamente. Acusou nós de bandidos, assassinos, tudo que não prestava. Que invadíamos as cidades de faca, cacete e o que tinha de arma. Que tinha prendido o Zé Vicente porque ele era um comunista, era o mesmo Antônio Vicente lá do caso de Pirapemas, que apenas tinha mudado o nome de Antônio, mas que não tinha nada que ver uma coisa com a outra, de jeito nenhum (Santos, 2010, p.160).
O golpe civil-militar de 1964, no entanto, abreviou qualquer possibilidade de conquista dos camponeses, iniciando um período mais duro de atuação do Estado contra os movimentos de luta campesina. Esse momento marca também o início de forte campanha de perseguição do estado contra Manoel da Conceição, que buscou se afastar para regiões com maior dificuldade de acesso, na cabeceira do Rio Caru, interior do Município de Pindaré-mirim. Ali ele planejava estabelecer um polo de resistência, juntamente com outros camponeses da região construíram uma grande roça coletiva para arrecadar dinheiro e comprar armas como forma de fazer frente ao poder do Estado, mas foi dissuadido por membros da Igreja.
No contexto das eleições de 1965, José Sarney, aproveitando-se do cenário maranhense da época manifestava intenso apoio aos direitos camponeses e se comprometera atuar nesse sentido. Se elegeu, portanto, com apoio da classe camponesa, que tinha também forte interesse em retirar o grupo vitorinista do poder. Como relembra Manoel da Conceição:
No final de 65. Aí José Sarney, por onde ele passava era jurando a Deus e ao povo, dizendo o seguinte: 'Meus irmãos que foram preso, que apanharam, que perderam terra, vou meter esses bandido tudo na cadeia, se eu for eleito a governador desse estado. E mais. O Tide Santos (que era um cara que tinha lá, o prefeito) e o Cerêncio (Carlos), (que era outro) esses homens, vou mandar pegar, vivinho, tirar o couro e mandar os lavradores tirar talo de coco e babaçu e espichar no sol quente, para todo mundo ver o couro deles lá, secando, para fazer calçado'. E o povo [...] acreditou (Santos, 2006 apud Amaral Neto, 2024, p. 294).
Uma das primeiras iniciativas do novo governo no meio rural maranhense, no entanto, foi fechar o sindicato, que se manteve na clandestinidade, pressionado por intimidações e violência física.
O sindicato atuava em diversos setores, sendo um deles a saúde pública das comunidades pouco alcançadas ou não alcançadas pelo estado nesse quesito, levava médicos para realizar atendimentos locais. Em um desses atendimentos ocorreu o incidente que lhe custaria a perna. Após chegada violenta da política, Manoel entrou em briga corporal no intuito de contê-los. A polícia revidou com tiros, atingindo seus pés. Preso e sem atendimento médico adequado, viu seu membro ficar cada vez mais debilitado. Diante disso, da situação foi transferido para São Luís. Não havendo mais possibilidade de recuperação, sua perna foi amputada próximo ao joelho, passando a utilizar uma perna mecânica. Ainda em São Luís Manoel recebeu a visita de três representantes de uma secretaria do governo de José Sarney. De acordo com acontecimentos narrados por ele:
'Achamos que devemos dar uma assistência melhor possível a sua mulher. Vamos buscar ela em Teresina, onde ela está com os meninos. Trazer pra cá, arranjar uma casa ou um hotel'. 'Não é preciso, eu tenho um irmão aqui. Ela fica na casa dele'. Ela veio pra São Luís, pagaram as despesas e propuseram também o seguinte: 'Você perdeu essa perna, mas isso não é problema. A gente vai pagar o teu tratamento. Vamos mandar botar uma perna mecânica. Você não volta mais pro interior do Maranhão, vai ficar aqui em São Luís. A gente vai procurar um apartamento pra vocês, um emprego onde você possa trabalhar sem fazer muito esforço [...]'. Aquilo me deu uma raiva danada. Eu sabendo que a manobra era deles, tudo aquilo eram eles que tinham feito! [...]'. Daí foi que se viu aquela palavra de ordem: 'Minha perna é minha classe', dessa recusa que eu fiz ao governo. A minha primeira perna mecânica foi paga exclusivamente com arrecadação financeira de massa [...] (Santos, 2010, p. 212-213, grifo nosso).
Após estes eventos, Manoel seguiu sua militância, utilizando a frase "Minha classe é minha perna" como lema. Esta frase tornou-se conhecida internacionalmente. Ele passou então por um período de formação, promovido por organizações de esquerda, viajando pela Europa, Oriente Médio e China, sendo nesta última recebido por Mao Tsé-Tung, líder da Revolução de 1949. Esta visita foi vista com preocupação pelo governo militar, que passou a desenvolver forte campanha destinada a difamar Manoel e outras lideranças camponesas. Em 1972, ele foi novamente preso, sendo libertado em 1965 com condenação de 3 anos e direitos políticos cassados por dez. Após recurso, foi inocentado. Mudou-se para São Paulo, vivendo em residência eclesial ligada à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Mais tarde, esta casa seria invadida e Manoel novamente preso por 45 dias. Após liberto, exilou-se na Suíça, onde também atuou em lutas sociais. Ao logo desse período, com apoio da Anistia Internacional realizou palestras pela Europa, debatendo política e direitos humanos.
Trabalhadores recepcionam Manoel da Conceição no seu retorno do exílio, em 1979
Fonte: Brasil de Fato
De volta ao Brasil em 1979, voltou a engajar-se nas lutas sociais no país. Participou da formação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), foi um dos fundadores do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU) em Pernambuco, entidade voltada à garantia da qualidade de vida à classe camponesa e promoção da auto-organização. Posteriormente, a entidade seria criada também no Maranhão, possibilitando, entre outras beneficies a construção da escola sindical Padre Josimo, um centro de capacitação em cooperativa e implantação de culturas permanentes no Maranhão. Mais tarde, Manoel foi contribuiu também na criação do Centro Nacional de Apoio às Populações Tradicionais – CNPT (atualmente, Instituto Chico Mendes). No ano seguinte, atuou na construção do Partido dos Trabalhadores (PT), sendo seu terceiro filiado, motivado pela perspectiva de inserção da classe trabalhadora na política partidária para a garantia dos seus direitos. Trabalhou na estruturação do PT no Nordeste. Pelo partido, candidatou-se várias vezes: ao governo de Pernambuco e ao senado maranhense, em 1994, sem êxito em ambos os pleitos.
Manoel da conceição morreu em 2021, aos 81 anos na cidade de Imperatriz, onde residia desde 1986.